Milágrimas
(Itamar Assumpção e Alice Ruiz)



Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo

Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre



luz do sol
que a folha traga
e traduz
em verde novo
em folha
em graça
vida
força
e luz!


 

No hay nostalgia peor que añorar aquello que nunca se vivió.

 

...é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
porque o que basta acaba onde basta,
e onde basta não basta,
e nada que se pareça com isto

deve ser o sentido da vida.."

Andy Warhol image

Estou me acostumando comigo
Revendo a casa, os vizinhos
e os vazamentos
E isso já não me assusta mais
Estou me acostumando contigo
Revendo palavras
sem modismo
Olhares antigos
nas frases que você agora traz
Se volto pra mim
Pouso na terra
e é macio saber
que isso não me assusta
Que "me gusta" voltar

(ME GUSTA Christiaan Oyens - Zélia Duncan)

para alguém que está longe... porém não distante

andy warhol

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

A Rua dos Cataventos Quintana

'

Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende duas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade'.

(Rainer Maria Rilke)

Todas as paisagens nórdicas

Todos os ventos frios

Todas as árvores

encobertas de geada

Toda neve que nunca tive

Os zero graus do sul

A bússola dos invernos

E um cobertor de lã

Um cachecol europeu

Unas luvas quentinhas

Umas pantufas de pêlo

Um bandeneon ao longe

Um chá

ou um cálice de vinho bom

um escalda-pés

Tudo para aquecer

Um coração congelado

Num verão de 40 graus.

 

Corra Lola, Corra! (dos clichés)!

 

 

O que fazer quando  sobra um tédio na doce perfeição da vida? Quando parar para olhar pra si mesma e não gostar do seu cabelo, nem das suas roupas, e reclamar um estilo que vc quase nunca tem, os amigos são os mesmos, te chamam pra os mesmos programas, tudo é previsivel, estável  e nada de novo no front? Quando é preciso uma pitada de um tempero picante pra contrastar com uma doce calmaria ? Quando é preciso sair do vermelho e ganhar todas as cores do mundo? Tentar uma companhia diferente que não seja nosso bichinho de estimação, domesticado e pronto pra nos agradar? Quando é preciso se jogar na vida de cabeça, mesmo que adotando o velho clichê amar-sofrer, ou ficar sozinho até q alguem um dia repare no seu equilibrio e maturidade? O que fazer quando a solidão quer ocupar menos espaço na sua vida ? vc quer escrever um texto cheio de experiencias que viveu, e naõ apenas dos livros que leu? O que fazer pra medir uma calmaria extrema com uma ansiedade excessiva? A resposta sempre estara dentro de nos mesmos, acho. E preciso falar disso sem medo de  auto ajuda que-só-funciona-pra-quem-escreve, é preciso sair de todos os textos da mídia, de todos os produtos, das promessas, dos amigos que so te chamam pra cobrir brechas em sua vida e não pq te apreciam de verdade, e dos que apenas querem te usar pq falta neles o q vc já tem, daqueles q ainda não aprenderam como é bom trocar e partilhar sempre, experiências, palavras, idéias, atitudes, medos, dúvidas, alegrias, solidões, sucessos e fracassos, altos e baixos, carícias, carinhos, emoções, ... é preciso ir de encontro sempre, sempre sempre     a nós mesmos no outro. É preciso ouvir uma música diferente, se possível de um país longínquo, pensar em outras formas de viver, de respirar, experimentar novos pratos, tentar o sabor de um jiló e quem sabe gostar do contraste do amargo, é preciso falar línguas, se abrir pro novo, conhecer culturas, sair de quatro paredes, caminhar no mato, olhar pro verde, pensar na clorofila e na seiva das árvores, pensar que tudo que é vivo respira e convive, tentar falar com os bichos sem  se sentir patético, tentar ler um livro q vc por limitações nunca se sentiu capaz, encarar os problemas de frente .... precisamos disso tudo, e muito mais.Pra não ser a Macabéa da Hora da Estrela... corremos atras de tudo, sem cartomantes e atropelos...

 

Ainda insiste

uma falta

E passam ruas

Ao largo

Esquinas

Pelas retinas

Em movimento

E parece que te avisto

O olhar em vão

nada existe

só uma cidade

Que me persegue em ti

Como roteiro e mapa

 

 

Pérolas

aos poucos...

Pois que o tempo

silenciosamente

Circulou de brilho e forma

Um grão

de areia

 

vamos passear na praça
enquanto o lobo não vem
enquanto sou de ninguém
enquanto quero te ver.

(plagiado de BB.)

Diário de bordo

 

Às segundas frias... sou aquela que prepara a sopa. Às terças, sou a que faço contas e perco as chaves. Às quartas, sou quem alimenta os pássaros, às quintas, atendo telefones e organizo a agenda... e às sextas, nunca me tenho em casa: sou a arte de dobrar  esquinas percorrendo meu espaço imaginário, cada nota que soa em choro, jazz, samba é um pouso. Aos sábados, ignoro as nuvens de poluição e  flutuo em céus róseos de fim de tarde. Aos domingos, sonho com paisagens longínquas ... Há quanto tempo não me brilha as pupilas, não sei há quanto tempo vejo a vida geométrica como  uma mala no canto do armário:  em sua medida exata, com as quatro abas encerradas que dão a sua forma quadrada... Dentro joguei meus sonhos, minhas viagens pelo mundo, meus ais, meus ahs!, tranquei-os: essa massa preencheu o espaço lógico e preciso de um cubo. Também foi no escuro da gaveta que abandonei minhas palavras, minhas imagens verbais arquivadas, memórias amassadas à espera de um resgate... Ah, quem sair por último, por favor,   me acenda as luzes!  

 

 

Ao som de Coltrane, Miles Davis, Billy

Holliday... não importa quantas notas

soem

Nesse teto

onde toca

os dedos da chuva

Existirá sempre

 um clima bom

 para acender

Um fogo

De palha.

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